O pequeno príncipe e a pequena princesa
Com tanto banco espalhado pelos jardins da escola, e com tanto gramado à sombra de árvores para ficar, ela escolheu, para ler, justamente o espaço entre a porta da secretaria e o bebedouro. Em redor havia o movimento das professoras, e das colegas que iam e viam. Ela, absorta, não levantava os olhos do livro. Passei eu também por ali, e ela nem se mexeu. O livro a fascinava tanto que parei, e fiz a primeira foto sem que ela se desse conta. Pedi licença, e indaguei que livro era. Sorrindo, ela me mostrou a capa: “O pequeno Príncipe”. Na mesma hora entendi a razão daquele comportamento, pois esse livro fascina qualquer um que o leia com seriedade. Perguntei em que parte ela estava, e ela me explicou que era o momento em que o Pequeno Príncipe descrevia sua conversa com o rei egoísta. Agradeci, e fui me afastando devagar. Não queria interromper mais a conversa entre o rei, o pequeno príncipe e a pequena princesa.

A Serenidade da Priscila
Nos degraus do anfiteatro da escola, envoltos pela sombra suave das árvores, Priscila encontra um refúgio silencioso. Enquanto os colegas, lá no pátio e na quadra, conversam e riem, ela, hoje, optou pelo recolhimento. Com a flauta entre as mãos, seus dedos deslizam com leveza, e as notas de “Ode à Alegria” de Beethoven flutuam no ar.
Priscila conversa com Beethoven. O espaço que ela escolheu parece feito para esse instante. A luz filtrada pelas folhas dança sobre seu rosto concentrado, e o som da música se mistura ao sussurro das árvores. É um momento de pausa, de contemplação, onde a arte se sobrepõe ao ruído cotidiano. Priscila não está só — está com a música, com a natureza, e com a paz que escolheu cultivar.

RODA DE CONVERSA, com Anita Malfatti e Mário de Andrade
A manhã estava muito fria, e o céu límpido convidava para ficar na quadra, tomando o sol. As meninas e a professora de literatura aceitaram o convite. Sentadas em círculo, sem a rigidez da sala de aula, elas conversavam.
O tema era a efervescência do Modernismo brasileiro, com destaque para a Semana de Arte Moderna de 1922. A professora, com entusiasmo, guiava o diálogo, mas era a troca entre as alunas que dava vida ao momento. Cada uma trazia suas impressões sobre Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti — nomes que pareciam mais próximos sob aquele céu aberto.
O ambiente favorecia a escuta e a expressão. O sol aquecia os corpos e, de certa forma, também as ideias. O círculo convidava à participação espontânea, e o espaço amplo da quadra parecia ecoar as vozes com liberdade. Ali, o aprendizado não era apenas intelectual — era sensorial, afetivo, coletivo. A literatura nascida da ruptura e da ousadia, encontrava ali um cenário à altura: livre, iluminado, vivo.

Texto por Evandro Faustino, professor e diretor de formação do Colégio Caminhos e Colinas
